A BONECA EMÍLIA 25 ANOS DEPOIS
Reportagem: Liba Frydman
Fotos: Paulo Salomão
Há 25 anos atrás, com o nascimento da televisão brasileira, Lúcia Lambertini iniciava sua carreira interpretando a sapeca boneca Emília (personagem dos contos infantis de Monteiro Lobato) no Sítio do Pica-pau Amarelo, série produzida para a Tupi pelo médico-psicanalista Júlio Gouveia. Durante 12 anos consecutivos ela fez esse papel, que marcou profundamente sua carreira, chegando mesmo a atrapalhar seu futuro como atriz. Hoje, Lúcia ressurge na mesma Tupi, interpretando Cidinha, uma dona de pensão, na novela A Viagem.
Uma simples personagem pode destruir uma carreira de atriz? Lúcia Lambertini diz que sim, mas que nunca se desesperou.
“Nenhum artista deve se sentir ultrapassado, nem ficar dizendo por aí que ninguém mais se lembra dele. Em vez de pensar assim, ele deve se esforçar e manter sempre aceso o fogo sagrado que faz parte da personalidade de cada artista. Eu, Lúcia Lambertini, sou um exemplo vivo, e digo que a carreira sempre recomeça.
O otimismo nunca abandonou Lúcia Lambertini, mesmo nos momentos mais difíceis da vida. Na mesma medida em que a boneca Emília inaugurou sua carreira, também representou uma pedra em seu caminho profissional. E Lúcia conta por quê:
“Por ser a Emília, eu não fazia mais nada, não me chamavam para representar nenhum outro tipo. Depois de doze anos, comecei a sentir que a artista que eu sou estava sendo prejudicada pela minha eterna personagem. Então, tratei de procurar outro caminho, tentando apagar a imagem já feita.”
O outro caminho foi escrever, produzir, fazer humorismo. Mas a verdade é que até hoje Lúcia encontra quem a chame de “Boneca Emília”. Nesse espaço de tempo, ela também casou e teve dois filhos: Fábio, que está com 17 anos, e Lúcio, de 15, que talvez siga a carreira de atriz.
TELEVISÃO DE VANGUARDA
Depois de doze anos como Emília, Lúcia foi trabalhar na TV Cultura, que ainda não pertencia ao Estado, mas sim às Emissoras Associadas. Lá, ela escreveu novelas e também deu uma de feminista:
“A idéia não foi minha, mas do Mário Fanucchi, que era o diretor. Ele me sugeriu realizar um programa só de mulheres, inclusive na área técnica: corte de imagem, câmeras, sonoplastia, cenografia, enfim, tudo. Eu, claro, topei na hora, mesmo porque sei que na Europa são as mulheres que exercem todos esses cargos. Mas como a experiência não valeu: as moças logo descobriram que corte de imagem não é fácil, câmeras são pesadas, o prato do disco não roda sozinho, e que é preciso saber desenhar pra armar uma cenografia. Daí, foram logo pedindo auxílio masculino. O que prometia ficar na história da TV foi por água abaixo. E eu descobri que não existe trabalho feminino ou masculino, mas sim disposição para enfrentar tarefas, sejam quais sejam!
Depois que deixou as Associadas, Lúcia voltou a ser Emília, na TV Bandeirantes, por mais algum tempo. Saiu, foi fazer humorismo na Record e na Excelsior, e há cinco anos para cá, por falta de oportunidade melhores.
O GANHA-PÃO
Mas Lúcia não se deixou abater. Junto com a irmã, Leonor Pacheco, também atriz, e parada naquela época, abriu uma lanchonete perto da Tupi. Elas enfrentaram o trabalho com o mesmo ardor dos tempos da TV, mas sentiram falta das câmeras. Até porque Lúcia Lambertini fez, sempre na busca de se exprimir artisticamente.
Um dia a Tupi a chamou de novo. Primeiro para escrever e interpretar humorísticos e agora para trabalhar com A Viagem, de Ivani Ribeiro. Lúcia não esconde sua satisfação pelo que considera uma oportunidade inesperada:
“Minha vida artística recomeça de um novo marco. É a primeira vez que atuo numa novela e estou gostando do meu papel. Sou Dona Cidinha, a dona da pensão onde moram Tereza Sodré, Abraão Farc, Oswaldo Campozano e, no futuro, outros artistas de A Viagem. A novela tem muitos personagens dramáticos, e meu papel — escrito especialmente por Ivani Ribeiro — vai quebrar um pouco o rigor da história criada.


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