segunda-feira, 26 de outubro de 2026

A BONECA EMÍLIA CONCEDE UMA ENTREVISTA - Revista Radiolândia (1955)

Revista Radiolândia - 1955

Texto de: Liba Frydman
Fotos de: Hildo Passos

“Vaidade até debaixo d’água! Quando um falador começa a funcionar... ‘Você acha que eu podia ter um marido guloso?’ A personagem e a intérprete.


Entrevista sem perguntas

Agora que Emília começou a falar, nem precisamos mais lhe fazer perguntas, pois como ela mesma diz em sua pitoresca linguagem e com aqueles modos que Lobato lhe deu — “Agora já estou de falador aberto. Quem quiser que me acompanhe...” Eu gosto de todos no sítio do Picapau Amarelo. Não tenho preferência por ninguém. Se de vez em quando brigo com Pedrinho é porque gosto muito dele. Em primeiro lugar adoro tia Nastácia, porque foi ela que me fez, D. Benta porque conta histórias lindas, Narizinho porque é minha grande amiga, não me larga um minuto e vive arrumando minhas tranças. O Visconde de Sabugosa porque é um grande sábio e me ensina muitas coisas, e além disso é meu sogro. Não me posso esquecer do Dr. Caramujo! Imagine que se não fosse ele, e a pílula falante, até hoje eu não falava! É se repórter, quer tentar, quem tem tempo para fazer perguntas, pergunta e eu mesma sei responder, quer dizer, é que sou a faladeira boneca sem pilha... Mas nesse caso, adeus entrevista!

Legenda da fotografia: “Narizinho é minha melhor amiga...”

Idade não revelada

Por mais incrível que pareça, conseguimos entrevistar uma boneca! E não uma boneca, dessas loirinhas de olhos azuis, com cabelo bem escachado, que falam mamãe, e chegam a ensinar alguma besteira. Não! Nada disso! A nossa entrevistada é a Emília, a única Boneca Falante, e isto desde que o Dr. Caramujo lhe deu uma pílula que dos suas cordas vocais a funcionar. Desde então, assim que ela abre a boca, a família que mora no Sítio do Picapau Amarelo e os telespectadores que gostam de vê-la no canal 3, tomam fôlego para poder acompanhá-la... com os ouvidos, tal é a velocidade com que a danadinha fala!

Como toda a moça que se preza, Emília não gosta de declarar a sua verdadeira idade e é agressivamente que responde, quando a encostamos à parede: “Isso não é da sua conta! O meu pai, Monteiro Lobato, escreveu a primeira historinha sobre mim, lá para 1918... Mas que coisa! O que é que tinha de vir xeretar minha idade?” A repórter não se zanga (são ossos do ofício...) e tenta apaziguar Emília — “Se tenho muitos fãs? Hi, moça, este em Sítio dos feras, e o pessoal de lá não me dava sossego! Era um tal de pedir autógrafo...” E é assim que ficamos conhecendo mais uma faceta do caráter da boneca: vaidosa até debaixo d’água!

Legenda da fotografia: “Ganhei um picapau de presente dos meus fãs...”

Esposa desiludida

Emília toma fôlego, e continua a falar a jato: — “Você sabia que eu sou casada com o Marquês de Rabicó? Mas eu me separei dele no mesmo dia em que casei, e foi para sempre! Fiquei muito desiludida do Rabicó porque ele nem ligou para meu vestido de noiva. Só queria saber de comer! Você acha que eu podia ficar com um marido guloso desse jeito? Dizem por aí que eu sou exagerada. Não é nada disso. O que eu gosto é de contar as coisas para os outros a minha moda, e aí me espalho um bocado. Aliás, isso é para quem pode, quem não pode se esconder!”

Pedimos pelo amor de Deus a Emília, que dê uma folga para sabermos alguma coisa acerca de Lúcia Lambertini, que encarna a boneca na TV-Tupi, mas ela parece querer continuar na sua conversa no Sítio do Picapau Amarelo. Emília parece o nariz, mas resolveu calar a boca, e é assim que chega a nossa oportunidade de conhecer a artista.

Diário da Noite - 1º de dezembro de 1952 (Matéria sobre a Emilia)

 

Emília

Diário da Noite - 1º de dezembro de 1952 - Página 4

Todo mundo conhece as histórias que Monteiro Lobato escreveu para as crianças, grandes e pequenas, buscando instruí-las sem o aspecto puramente didático que tanto enfada. Entretanto, desde que Júlio Gouveia resolveu dar vida aos personagens de Lobato através do vídeo, esses livros passaram a ser vistos sob outro ângulo: a da assimilação mais perfeita e mais fácil pela retenção da imagem. Assim é que não existe quem, possuindo um aparelho de televisão, não conheça bem de perto a turma do “Sítio do Picapau Amarelo”: Narizinho, Dona Benta, Pedrinho, Tia Nastácia, o Visconde de Sabugosa, o Marquês de Rabicó e Emília.

É um prazer educativo assistir todas as terças-feiras, a um capítulo das obras infantis do grande escritor, muito bem vividos pelos alunos do T.E.S.P. (Teatro Escola São Paulo) ensaiados com o rigor da verdade pelo próprio Júlio Gouveia, Diretor e fundador do mesmo Teatro. 

Sem querermos obscurecer o trabalho de equipe do conjunto, cumpre porém destacarmos o esforço feito pela coadjuvante Lúcia Lambertini, no sentido de corporificar dentro do mais amplo conceito de fidelidade a figurinha difícil de “Emília”, a boneca de pano tão teimosa, tão autossuficiente e tão trapalhona. 

E que, por isso mesmo, se torna o símbolo da literatura infantil de Monteiro Lobato. Desde o princípio que ficamos fãs de Lúcia Lambertini e somente o excesso de afazeres nos obrigam a adiar por várias vezes, um encontro cara a cara à nossa simpatia. Afinal, conseguimos concretizar o nosso desejo e conhecemos em carne e osso a “Emília”.

Conversa daqui e de lá e soubemos que Lúcia estreou no teatro de amadores na peça “Irmãos das Almas”, dirigida pelo crítico teatral Décio de Almeida Prado, em janeiro de 1950. Era o grupo do teatro do SESC, do qual faziam parte David Neto e Maria Cecília, hoje nomes conhecidíssimos no Teatro de Vanguarda da TV. Tupi, canal 3. 

Depois, Júlio Gouveia assume a direção do grêmio do SESC e Lúcia Lambertini começa então sua carreira ascendente. A cada nova peça sobe um degrau, o que é melhor, sobe-o por merecimento, por esforço próprio, no sentido de vencer na carreira mesmo como amadora. 

Acontece porém que Júlio Gouveia desejava de há muito fazer teatro para criança e num arremesso de coragem funda o T.E.S.P. Quem mais indicado para auxiliá-lo na árdua tarefa das primeiras investidas senão essa moça cheia de boa vontade para quem o teatro mesmo como amador era uma religião? Foi portanto montada a primeira peça  “Peter-Pan”, e Lúcia encarnou “Wanda”, deixando a quantos a viram assombrados com o realismo que imprimiu à sua criação naquele papel. 

Daí para cá essa mocinha bonita só se dedicou ao teatro para crianças, do qual é confessa apaixonada. Como a história é um pouco mais longa e merece ser contada, com pormenores amanhã daremos a continuação.

MARBERT