Revista Radiolândia - 1955
Texto de: Liba Frydman
Fotos de: Hildo Passos
“Vaidade até debaixo d’água! Quando um falador começa a funcionar... ‘Você acha que eu podia ter um marido guloso?’ A personagem e a intérprete.
Entrevista sem perguntas
Agora que Emília começou a falar, nem precisamos mais lhe fazer perguntas, pois como ela mesma diz em sua pitoresca linguagem e com aqueles modos que Lobato lhe deu — “Agora já estou de falador aberto. Quem quiser que me acompanhe...” Eu gosto de todos no sítio do Picapau Amarelo. Não tenho preferência por ninguém. Se de vez em quando brigo com Pedrinho é porque gosto muito dele. Em primeiro lugar adoro tia Nastácia, porque foi ela que me fez, D. Benta porque conta histórias lindas, Narizinho porque é minha grande amiga, não me larga um minuto e vive arrumando minhas tranças. O Visconde de Sabugosa porque é um grande sábio e me ensina muitas coisas, e além disso é meu sogro. Não me posso esquecer do Dr. Caramujo! Imagine que se não fosse ele, e a pílula falante, até hoje eu não falava! É se repórter, quer tentar, quem tem tempo para fazer perguntas, pergunta e eu mesma sei responder, quer dizer, é que sou a faladeira boneca sem pilha... Mas nesse caso, adeus entrevista!
Legenda da fotografia: “Narizinho é minha melhor amiga...”
Idade não revelada
Por mais incrível que pareça, conseguimos entrevistar uma boneca! E não uma boneca, dessas loirinhas de olhos azuis, com cabelo bem escachado, que falam mamãe, e chegam a ensinar alguma besteira. Não! Nada disso! A nossa entrevistada é a Emília, a única Boneca Falante, e isto desde que o Dr. Caramujo lhe deu uma pílula que dos suas cordas vocais a funcionar. Desde então, assim que ela abre a boca, a família que mora no Sítio do Picapau Amarelo e os telespectadores que gostam de vê-la no canal 3, tomam fôlego para poder acompanhá-la... com os ouvidos, tal é a velocidade com que a danadinha fala!
Como toda a moça que se preza, Emília não gosta de declarar a sua verdadeira idade e é agressivamente que responde, quando a encostamos à parede: “Isso não é da sua conta! O meu pai, Monteiro Lobato, escreveu a primeira historinha sobre mim, lá para 1918... Mas que coisa! O que é que tinha de vir xeretar minha idade?” A repórter não se zanga (são ossos do ofício...) e tenta apaziguar Emília — “Se tenho muitos fãs? Hi, moça, este em Sítio dos feras, e o pessoal de lá não me dava sossego! Era um tal de pedir autógrafo...” E é assim que ficamos conhecendo mais uma faceta do caráter da boneca: vaidosa até debaixo d’água!
Legenda da fotografia: “Ganhei um picapau de presente dos meus fãs...”
Esposa desiludida
Emília toma fôlego, e continua a falar a jato: — “Você sabia que eu sou casada com o Marquês de Rabicó? Mas eu me separei dele no mesmo dia em que casei, e foi para sempre! Fiquei muito desiludida do Rabicó porque ele nem ligou para meu vestido de noiva. Só queria saber de comer! Você acha que eu podia ficar com um marido guloso desse jeito? Dizem por aí que eu sou exagerada. Não é nada disso. O que eu gosto é de contar as coisas para os outros a minha moda, e aí me espalho um bocado. Aliás, isso é para quem pode, quem não pode se esconder!”
Pedimos pelo amor de Deus a Emília, que dê uma folga para sabermos alguma coisa acerca de Lúcia Lambertini, que encarna a boneca na TV-Tupi, mas ela parece querer continuar na sua conversa no Sítio do Picapau Amarelo. Emília parece o nariz, mas resolveu calar a boca, e é assim que chega a nossa oportunidade de conhecer a artista.

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