Emília
Diário da Noite - 1º de dezembro de 1952 - Página 4
Todo mundo conhece as histórias que Monteiro Lobato escreveu para as crianças, grandes e pequenas, buscando instruí-las sem o aspecto puramente didático que tanto enfada. Entretanto, desde que Júlio Gouveia resolveu dar vida aos personagens de Lobato através do vídeo, esses livros passaram a ser vistos sob outro ângulo: a da assimilação mais perfeita e mais fácil pela retenção da imagem. Assim é que não existe quem, possuindo um aparelho de televisão, não conheça bem de perto a turma do “Sítio do Picapau Amarelo”: Narizinho, Dona Benta, Pedrinho, Tia Nastácia, o Visconde de Sabugosa, o Marquês de Rabicó e Emília.
É um prazer educativo assistir todas as terças-feiras, a um capítulo das obras infantis do grande escritor, muito bem vividos pelos alunos do T.E.S.P. (Teatro Escola São Paulo) ensaiados com o rigor da verdade pelo próprio Júlio Gouveia, Diretor e fundador do mesmo Teatro.
Sem querermos obscurecer o trabalho de equipe do conjunto, cumpre porém destacarmos o esforço feito pela coadjuvante Lúcia Lambertini, no sentido de corporificar dentro do mais amplo conceito de fidelidade a figurinha difícil de “Emília”, a boneca de pano tão teimosa, tão autossuficiente e tão trapalhona.
E que, por isso mesmo, se torna o símbolo da literatura infantil de Monteiro Lobato. Desde o princípio que ficamos fãs de Lúcia Lambertini e somente o excesso de afazeres nos obrigam a adiar por várias vezes, um encontro cara a cara à nossa simpatia. Afinal, conseguimos concretizar o nosso desejo e conhecemos em carne e osso a “Emília”.
Conversa daqui e de lá e soubemos que Lúcia estreou no teatro de amadores na peça “Irmãos das Almas”, dirigida pelo crítico teatral Décio de Almeida Prado, em janeiro de 1950. Era o grupo do teatro do SESC, do qual faziam parte David Neto e Maria Cecília, hoje nomes conhecidíssimos no Teatro de Vanguarda da TV. Tupi, canal 3.
Depois, Júlio Gouveia assume a direção do grêmio do SESC e Lúcia Lambertini começa então sua carreira ascendente. A cada nova peça sobe um degrau, o que é melhor, sobe-o por merecimento, por esforço próprio, no sentido de vencer na carreira mesmo como amadora.
Acontece porém que Júlio Gouveia desejava de há muito fazer teatro para criança e num arremesso de coragem funda o T.E.S.P. Quem mais indicado para auxiliá-lo na árdua tarefa das primeiras investidas senão essa moça cheia de boa vontade para quem o teatro mesmo como amador era uma religião? Foi portanto montada a primeira peça “Peter-Pan”, e Lúcia encarnou “Wanda”, deixando a quantos a viram assombrados com o realismo que imprimiu à sua criação naquele papel.
Daí para cá essa mocinha bonita só se dedicou ao teatro para crianças, do qual é confessa apaixonada. Como a história é um pouco mais longa e merece ser contada, com pormenores amanhã daremos a continuação.
MARBERT

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